sábado, 14 de janeiro de 2017

TIRANA CHARRUA. PORQUE NINGUÉM MAIS DANÇA ??

Quem me vê hoje em dia, talvez nem imagine que já fui um grande sapateador. 
Não, não é falta de modéstia, é verdade mesmo.  Basta perguntar pra quem me conheceu lá pelo final da década de 1970 até meados da de 1980.
Tá certo, já faz quase 40 anos.  Mas, apesar deste tempo todo, ainda lembro como se tivessem acontecido ontem, as inúmeras apresentações, individuais e coletivas, das quais participei como integrante da Invernada Artística do CTG Coronel Chico Borges, entidade da minha terra natal, Santo Antônio da Patrulha.
Eu era “meio enjoado” no sapateio da Chula, do Malambo e das danças tradicionais, que naquela época, entre 1976 e 1981, não eram mais do que vinte.  
Nós, integrantes da invernada do Chico Borges, além de sabermos todas as danças oficiais, tínhamos ainda no nosso repertório, uma dança a mais, chamada “Tirana Charrua”, que nos foi ensinada pelo grande sapateador e excelente coreógrafo, Edegar Campos, à época nosso instrutor. 
A execução da Tirana Charrua era um dos momentos mais esperados pela plateia que assistia as nossas apresentações, pois se configurava num bonito espetáculo de sapateios, recitados e sarandeios, que exigia boa memória, criatividade e muita habilidade dos dançarinos, motivos pelos quais cativava e encantava o público.  
Pra dançar a Charrua, bastavam dois peões, os mais destacados do grupo, que tivessem boa agilidade no sapateio, e uma penda, preferencialmente a melhor e, sempre que possível, a mais graciosa da invernada.  Eu era sempre um destes peões.
O gaiteiro abria a cordeona, iniciando os acordes da melodia própria da referida dança. 
Na terceira volta, a prenda se movimentava, sarandeando, em direção ao centro da pista do salão, ou do palco, se fosse o caso. 
Mais uma ou duas voltas da música e ela mandava “parar a gaita”, após o que recitava estes versos:
Eu entrei neste salão
Com meu vestido de luxo
Quero ver se aqui encontro
Ou se existe algum gaúcho                         

Após os versos recitados pela prenda, o gaiteiro reiniciava a melodia da Tirana e logo já era interrompido - “pára a gaita gaiteiro” - , desta vez por um dos peões que, vindo de um lado da pista, aceitava o desafio da prenda e declamava uma glosa,:
Chinoca quando te vi
Senti um aperto no coração
Vou fazer um passo dobrado
De arrastar a espora no chão

Depois dos versos proferidos pelo peão, o gaiteiro reiniciava a música.  O peão, executando passos sapateados, dirigia-se até o centro da pista, onde a prenda continuava sarandeando.
Ao se se aproximarem, o peão e a prenda encenavam uma espécie de “namoro”, no qual o peão sapateava ao redor da prenda, executando, no final de cada compasso, uma “castanhola”, levantando os dois braços e fazendo estalar o dedo médio com o polegar.
Ao final do quarto compasso, o peão cumprimentava a prenda e se retirava do centro da pista, sapateando, de costas, até o seu lugar de origem.
A prenda continuava sarandeando e dança prosseguia até que a prenda mandava o gaiteiro novamente “parar a gaita”, após o que recitava outra estrofe desafiadora:
Eu entrei neste fandango
E desafiei um gaúcho
Mas este que veio agora
Não aguentou o repuxo

Depois do verso "debochado" da prenda, o gaiteiro retomava os acordes da melodia da Tirana Charrua, até o momento em que era novamente interrompido, desta feita pelo outro peão, posicionado em outra extremidade da pista. O peão também recitava uma glosa para a prenda:
Prenda linda, flor gaúcha 
Gostei da tua arrogância
Quero ver se te agradam
Os passos da minha dança

Depois da fala do peão, a música reiniciava e este, sapateando, dirigia-se até o centro da pista, onde a prenda o esperava sarandeando.
A exemplo de seu “oponente”, ele sapateava ao redor da prenda e, no final de cada compasso, executava uma “castanhola”.
Ao final do quarto compasso, o peão, sapateando de costas, retornava ao seu local de origem.
A chegada do segundo peão na lateral da pista, era a “deixa” para a etapa final da Tirana Charrua, quando os dois peões, executando seus melhores passos de sapateio, dirigiam-se ao centro, para demonstrarem simultaneamente, suas habilidades para prenda.
Os dois peões faziam a mesma coreografia da primeira parte, cada um por um lado da prenda.
Ao final do quarto compasso, eles sapateavam mais dois compassos e encerravam a dança, um ajoelhado e o outro de pé, cada um segurando uma das mãos da prenda.

Dava gosto de dançar a Tirana Charrua, pois além de ser muito bonita, era vistosa, divertida e uma desafiadora demonstração de talento.  
Agora, transcorrido este tempo todo, digam-me os mais entendidos do que eu... 
Porque razão não se fala mais e muito menos, se assiste apresentações da Tirana Charrua   ??
Será que ela foi inventada pelo nosso instrutor, Edegar Campos?  
Não existe nenhuma pesquisa de campo que comprove a existência dessa dança?

Talvez algum instrutor de dança, ou quem sabe o nosso mestre e ícone maior do folclore gaúcho, Paixão Côrtes, possa responder.

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